terça-feira, 30 de dezembro de 2014

CO-ESTRELANDO... WOODY STRODE


Uma linda mulher, montando um cavalo, entra na pequena cidade de madeira. Ela mede 1,74mt, boca sensual, olhos azuis cintilantes e profundos – duros ao fitar seus inimigos. Cabelos louros, em desalinhos, soltos ao vento. Está cansada, mas, seu trajeto é decisivo. Nada impede de entrar naquele miserável, esquecido e poeirento lugarejo de escaldante sol. 

Charlie Moonlight, um velho negro de visível aparência cansada, vestindo surrado terno marrom, chapéu coco na cabeça, acompanha o cavalgar da jovem e a saúda gritando: 

- “Um metro e setenta e seis! Sim, um metro e setenta e seis! Eu nunca me engano”! 

Ela responde fuzilando-o com um olhar de desprezo. Coveiro é maldito no Oeste americano. É um mau agouro para pistoleiros. Ela segue em frente seu caminho e ele voltar a trabalhar em um caixão. A experiência daquele homem o faz “medir” as pessoas com um simples olhar. A amazona é Sharon Stone. O agente funerário é Woody Strode. E este será seu último filme: “Rápida e Mortal” (The Quick and the Dead/1995), de Sam Raimi - nos créditos finais, seu nome aparece recebendo uma justíssima homenagem, do diretor, que lhe dedica o filme.



Quando ainda não havia “cotas” para negros no cinema americano, Woodrow Wilson Woolvine Strode já brilhava na tela grande. Por talento! Nasceu na cidade de Los Angeles - Califórnia - a 25 de julho de 1914. Ou seja: teria feito 100 anos, se vivo fosse. Foi uma estrela de futebol americano da UCLA – University of California, Los Angeles. O cineasta John Ford (1894-1973) o levou para fazer uma ponta, sem crédito, no seu clássico “No Tempo das Diligências (Stagecoach/1939). Em seguida o jovem trabalhou com o diretor Henry Hathaway (1898–1985) no filme “Quando Morre o Dia” (Sundown/1941). Devido seu porte atlético – e também lutador – fez vários filmes onde aparecia trocando socos. Os mais famosos são “Demetrius e os Gladiadores” (Demetrius and the Gladiators/1954, de Delmer Daves, 1904–1977), e “Spartacus” (idem/1960), de Stanley Kubrick (1928–1999). Foi ele quem desafiou Kirk Douglas numa arena (a curiosidade fica por conta de uma de suas falas: “Gladiadores não fazem amigos.” Genial!). Também atuou em filmes ambientados na África Negra e filmes de piratas. Fez vários filmes faroestes (tanto americanos como produções italianas deste tema). No filme “Os Dez Mandamentos” (The Ten Commandments/1956, de Cecil B. DeMille, 1881–1959), fez um príncipe etíope vencido por Moisés (Charlton Heston, 1923–2008).

Ainda em 1960 o mestre John Ford o escalou para ser um dos protagonistas do filme “Audazes e Malditos” (Sergeant Rutledge). A história se passa em um forte militar, no Arizona, onde Strode fez o papel Rutledge - sargento do Batalhão Negro (conhecidos como os “Soldados Búfalos”). Na caserna vive uma adolescente, filha do comandante. São amigos. Os brancos do forte não aprovam e hostilizam aquela amizade. Uma noite a mocinha sofre um estupro e em seguida, assassinada. Por sua cor, e algumas atitudes suspeitas, todos acreditam ser ele o culpado pelo crime. O tema é extremamente delicado e polêmico. Numa época em que os estados do Sul dos Estados Unidos estão vivendo em conflito com a comunidade negra daquele país. Mas Ford é Ford e, com sua habilidade e maestria, o filme é um sucesso. Strode dá um banho de interpretação.

Depois disso o ator fez grandes filmes. Dentre eles, clássicos como “Os Profissionais” (The Professionals/1966, de Richard Brooks, 1912–1992), “Era Uma Vez No Oeste” (C'era una volta il West/1969, de Sergio Leone, 1929–1989), “A Crista do Diabo” (The Deserter/1971, de Niksa Fulgosi, 1919–1996 e Burt Kennedy, 1922–2001), “Keoma (idem/1976, de Enzo G. Castellari), entre outros. Nestes filmes Strode foi cowboys, gladiadores, policiais, soldados, piratas, nativo africano. Também fez papel de índio em “Terra Bruta” (Two Rode Together/1961, de John Ford), e Shalako (idem/1968, de Edward Dmytryk, 1908–1999). Foi um guerreiro mongol em “Gengis Khan” (Genghis Khan/1965, de Henry Levin, 1909–1980), e um bandoleiro  chinês em “Sete Mulheres” (7 Women/1966, de John Ford).

Com John Wayne (1907-1979) Woody Strode trabalhou em apenas um filme: “O Homem que Matou o Facínora” (The Man Who Shot Liberty Valance/1962, de John Ford). Onde fez o papel de “Pompey” - leal auxiliar de Tom Doniphon (Wayne). Ford também lhe deu uma fala emblemática: numa aula sobre democracia responde ao professor, Ranson Stoddard (James Stewart, 1908–1997), sobre igualdade, direitos e deveres. Linda a cena!

Além de atleta, também era exímio atirador de arco e flecha – e este talento, a parte, lhe foi explorado em vários filmes. Em 1993, antes de fechar sua filmografia de 93 filmes – entre 1939 e 1995 -, com alguns trabalhos para séries de TV: Mandrake, O Mágico, Daniel Boon, Batman, Tarzan, entre outras séries, Woody Strode fez o curioso “Posse” (idem, de Mario Van Peebles), que conta a estória de cowboys negros. Aliás, ele é quem faz, em flashback, a narração do filme.

O grande ator negro faleceu, aos 80 anos, no dia 31 de dezembro de 1994, em Glendora, Califórnia. E muitos se lembraram de que foi ele quem, em 1973, durante o enterro do mestre John Ford, fez a celebre sugestão: “O mestre deveria ser enterrado em Monument Valley”... - fcésar




quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

FELIZ NATAL!


O Céu Mandou Alguém (tílulo original, “Os Três Padrinhos”) é um Auto de Natal contado por um dos maiores mestres do cinema: John Ford. No cast John Wayne, Pedro Armendáriz, Harry Carei Jr., Ward Bond, Mildred Natwick, Mae Marsh, Jack Pennick, Jane Darwel, Hank Word, Ben Johnson e todo o costumeiro elenco fordiano. Roteiro de Laurence Stallings e Frank S. Nugent. A belíssima fotografia é de Winton C. Hoch. Música de Richard Hageman. A execução de “Noite Feliz”, em um piano de um saloon do Velho Oeste, é, para mim, uma das cenas mais comoventes da História da Sétima Arte. Recomendo a gregos e troianos... - fcésar